quarta-feira

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(...) quando chegar à idade de compreender porque é que os Chineses são tão apaixonados pelas nuvens, porque é que usam a expressão "nuvens e chuvas" para designar o acto de amor e o estado de êxtase, porque é que os poetas e os tauistas falam de "Comer brumas e nuvens", de "Afagar brumas e nuvens" e de "Dormir com brumas e nuvens". No fundo, o que é a nuvem? Donde vem? Para onde vai? Eu que tinha todo o tempo para a observar, via que ela nascia do vale sob a forma de brumas, depois subia às alturas até atingir o céu onde podia vogar à vontade e tomar todas as formas, ao sabor do tempo, ao sabor do vento. De vez em quando, como se não se esquecesse da sua origem, consentia em regressar à terra sob a forma de chuva, cumprindo um percurso circular. Portanto, estava sempre algures mas não era de nenhures. Então o que era? Nada. Mas parecia que sem ela o céu e a terra tinham sido monótonos.

François Cheng, O que Disse Tianyi, Ed. Bizâncio, 2º edição 2001, p19

domingo

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De certo modo, a vida é arte. Seja ela breve ou longa, sejam quais forem as circunstâncias que tenhamos para a viver, todos queremos sempre fazer o melhor que pudermos dela - o melhor, não só em relação à técnica de viver, mas também precisamente no que diz respeito à compreensão do seu sentido. E isso significa aceder a um vislumbre do seu mistério.


Gusty L. Herrigel, Zen e a Arte do Caminho das Flores, Assírio & Alvim
, 2002, p.7

sábado

A rua dentro de casa.

Em forma de adaptar o seu corpo à cadeira, descruza a perna direita, cruza a esquerda, inclina ligeiramente a cabeça encostando-a ao azulejo, passa a mão pelos seus finos cabelos e olha, olha particularmente. Demonstra uns pequenos gestos que vão reflectindo uma ligeira tentação de concertar o jeito da conversa que no seu entender era pouco coincidente com aquele momento. Enquanto ouvia, escutava o silêncio das palavras e lá dentro o encontro já lhe tinha dito.

Caminha cuidadosamente o chão através dos seus pés durante o tempo suficiente para chegar onde pretende. Agarra nas mãos, empurra a porta, entra. Põe o seu olhar a olhar em direcção à rua que se orienta à sua frente, enquanto observa encosta o corpo a um grande alicerce branco. Aguardando que a espera termine, decide voltar à rua que estava particularmente agradável naquela noite da semana, apesar do frio que corria no meio das pessoas. Mas o tempo estava quase a parar assim que vira o corpo e o olhar toca.

sexta-feira

A rua dentro de casa.

Imagina uma cozinha ampla, com todos os electrodomésticos que nela dispôem a sua forma. Enquanto tu entras ou julgas entrar, já uma pessoa ocupa o espaço. Lanças o teu corpo a uma cadeira de tons azuis onde o descansas, onde os teus olhos permanecem num olhar atento à prosa e aos alimentos que se preparam cuidadosamente, aos gestos da fala, às palavras proferidas, à escuta de uma conversa. Mas o que está a ser dito.


Mesmo ao lado, o corpo sai de casa marcando a viagem numa ausência incerta do seu destino. O seu único conhecimento é uma rua que sobe, outra que desce, uma curva a direito, a paragem do corpo, o olhar à espera do sinal verde, uma passadeira a atravessar, a longa rua a mover-se a cada passo, a entrada no metro e a sua saída. E quando o corpo entra na rua outra vez o olhar é absorvido.

Imagem #8

Desmanchar uma cebola frente a um espelho
segurando a imagem dobrada.

quarta-feira

Imagem #6

Força torcida pela fragilidade.
A mão sangra um punho rasgado ao vento.
O corpo.

terça-feira

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As nuvens passam o dia no ar
não caiem como as pessoas...em encontros riscados em silêncio

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Cerrada em si a rua escuta
passos apressados
um corpo leva um abraço expirado pelo frio.

sábado

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"Relatam os Taoístas que, no grande começo do Não-Começo, o Espírito e a Matéria se encontraram em combate mortal. Por fim, o Imperador Amarelo, o sol do Céu, triunfou sobre Shuhyung,* o demónio da escuridão e da terra. O Titã, na sua agonia de morte, bateu com a cabeça contra a abóbada solar e despedaçou em fragmentos a cúpula azul de jade. As estrelas perderam os seus ninhos, a lua errou sem destino por entre os abismos agrestes da noite. Desesperado, o Imperador Amarelo procurou por onde pôde pelo conservador dos céus. Não teve de procurar em vão. Do mar oriental ergueu-se uma rainha, a divina Niuka,* de cornos coroada e com cauda de dragão, resplandecente na sua armadura de fogo. Foi ela quem soldou o arco-íris de cinco cores no seu caldeirão mágico e reconstruiu o céu chinês. Mas também se conta que Niuka se esqueceu de preencher duas pequenas fendas no firmamento azul. Assim principiou o dualismo do amor - duas almas rolando pelo espaço e nunca em sossego até se unirem para completar o universo. Cada um tem de construir o seu céu de esperança e de paz.
O céu da humanidade moderna está de facto despedaçado na luta ciclópica pela riqueza e pelo poder. O mundo anda às cegas na sombra do egoísmo e da vulgaridade. O conhecimento compra-se com má consciência, a benevolência pratica-se por amor à utilidade. O Oriente e o Ocidente, como dois dragões lançados num mar fermentoso, esforçam-se em vão por voltar a merecer a jóia da vida. Precisamos novamente de uma Niuka que conserte a grandiosa devastação; aguardamos o grande Avatar. Entretanto, tomemos um gole de chá. O ardor da tarde ilumina os bambus, as fontes murmuram com gosto, o sussurro dos pinheiros escuta-se na nossa chaleira. Sonhemos com a evanescência, e demoremo-nos na bela tolice das coisas."

*Shuhyung: Chu Yung
*Niuka: Nu Wa (Nu K´ua Shih).

Kakuzo Okakura, O Livro do Chá, BI.012,2007, pp 18-19

domingo

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quem se atreve a aquecer o frio,
onde o tempo ficou preso numa agulha.

sexta-feira

" "

O vento cai entre pedras que flutuam.
O vazio pleno adormece.
O silêncio fica suspenso.
A água lisa afunda-se.
O frio contempla o seu reflexo.
O martelo cintila.
O ar parte as montanhas.
A caricia rasga-se.
O sopro corre em pedaços.
A luz salta para o escuro.
A névoa torna-se espada.
O duro tronco levita.
O sorriso endurece.
O ar em flecha se torna.

terça-feira

" "

eleva-se uma onda, o olhar sorri
a rocha desfaz-se quando o mar lhe dá a mão.