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terça-feira

...

Bodhi não é como uma árvore.
O espelho brilhante não brilha em parte alguma:
Se nada há desde o princpio
Onde se acumula o pó?
Confucionismo

domingo

...

Retomo o dia à hora em que ele entra

quinta-feira

(...)

O que ouço, esqueço;
O que vejo, recordo;
O que faço, compreendo.
Confúcio

terça-feira

E as flores, para que são as flores?


Neste momento parte da noite observa a aragem do dia. O nevoeiro cerrado preenche o vazio pleno da montanha, o verde-escuro encontra a sua forma em folhas e ervas caídas e presas em ramos onde o orvalho habita. O silêncio ouve a respiração da humidade, o sopro do vento é tocado por suaves brisas.     Enquanto eu, agarro o corpo, seguro as mãos, lanço-me à encosta íngreme com um fardo às costas. Um grande e pesado fardo de flores. Assim que o cimo da montanha se chega aos meus pés, deito por terra o peso. Observo o comboio que parte e se deixa levar pelo infinito. Eu permaneço tranquila, em mim, sabendo que a minha chegada tinha sido a permissão para a sua partida.

sexta-feira

Mesmo que encerre os meus olhos a respiração continua

Encontro uma folha enquanto respiro em silêncio, nela me deito em corpo e espírito e me demoro. Defronto uma respiração alargada que me desfaz. Desamparo palavras ao silêncio que se demora na minha companhia, estendo a mão onde ele se dissolve em mim e eu lhe confesso que fique. Fique até eu adormecer em cuidado e abra a porta para sair à rua do sonho onde a probabilidade existe em ser real. Em ser árvore - silenciosamente fixa permanentemente em movimento - comigo na rua permaneço ao achado e assim caminho levando os passos e os olhos mais à frente tocando a observação. Fui ao sol buscar – mando o ar cá para fora, ele cansa-me cá dentro

quinta-feira

Sem estar à espera

Sento-me, recomponho o corpo, olho em frente. Observo a imagem devolvida pelo espelho; alguém a olhar e a sorrir. Eu retribuo. Aquele sorriso naquele momento eram todas e as únicas palavras que estavam a ser ditas, e eu escutei com toda a atenção. Dentro da conversa alguma agitação, sinto-me a ser cuidadosamente tocada a partir das pontas dos cabelos até chegar ao pescoço, a respiração alcança um arrepio. Os meus olhos vão-se fechando, permanecendo devagarinho no escuro onde se vê um branco e algumas cores. A massagem termina. Sou convidada a sentar-me noutra cadeira. Vou expondo o meu pedido, observando o que me é dito. A nossa melhor conversa centra-se num olhar atento aos lábios, são eles que dão voz às palavras onde toda a linguagem está imersa em gestos sorrisos olhares e as mãos. As mãos a fazerem o que de melhor sabem, tocar, sentir, fazer. Durante esta permanência de momentos e uma satisfação de sorrisos, a linguagem verbal não respirava para poder ser dita através da voz. Quando não se tem voz, a beleza do mundo dirige-se a outros sentidos. Quando não se espera ouvir uma palavra, alcança-se uma infinidade de diálogo. Mesmo que este decorra num cabeleireiro.

quarta-feira

...

(...) quando chegar à idade de compreender porque é que os Chineses são tão apaixonados pelas nuvens, porque é que usam a expressão "nuvens e chuvas" para designar o acto de amor e o estado de êxtase, porque é que os poetas e os tauistas falam de "Comer brumas e nuvens", de "Afagar brumas e nuvens" e de "Dormir com brumas e nuvens". No fundo, o que é a nuvem? Donde vem? Para onde vai? Eu que tinha todo o tempo para a observar, via que ela nascia do vale sob a forma de brumas, depois subia às alturas até atingir o céu onde podia vogar à vontade e tomar todas as formas, ao sabor do tempo, ao sabor do vento. De vez em quando, como se não se esquecesse da sua origem, consentia em regressar à terra sob a forma de chuva, cumprindo um percurso circular. Portanto, estava sempre algures mas não era de nenhures. Então o que era? Nada. Mas parecia que sem ela o céu e a terra tinham sido monótonos.

François Cheng, O que Disse Tianyi, Ed. Bizâncio, 2º edição 2001, p19

sábado

A rua dentro de casa.

Em forma de adaptar o seu corpo à cadeira, descruza a perna direita, cruza a esquerda, inclina ligeiramente a cabeça encostando-a ao azulejo, passa a mão pelos seus finos cabelos e olha, olha particularmente. Demonstra uns pequenos gestos que vão reflectindo uma ligeira tentação de concertar o jeito da conversa que no seu entender era pouco coincidente com aquele momento. Enquanto ouvia, escutava o silêncio das palavras e lá dentro o encontro já lhe tinha dito.

Caminha cuidadosamente o chão através dos seus pés durante o tempo suficiente para chegar onde pretende. Agarra nas mãos, empurra a porta, entra. Põe o seu olhar a olhar em direcção à rua que se orienta à sua frente, enquanto observa encosta o corpo a um grande alicerce branco. Aguardando que a espera termine, decide voltar à rua que estava particularmente agradável naquela noite da semana, apesar do frio que corria no meio das pessoas. Mas o tempo estava quase a parar assim que vira o corpo e o olhar toca.

sexta-feira

A rua dentro de casa.

Imagina uma cozinha ampla, com todos os electrodomésticos que nela dispôem a sua forma. Enquanto tu entras ou julgas entrar, já uma pessoa ocupa o espaço. Lanças o teu corpo a uma cadeira de tons azuis onde o descansas, onde os teus olhos permanecem num olhar atento à prosa e aos alimentos que se preparam cuidadosamente, aos gestos da fala, às palavras proferidas, à escuta de uma conversa. Mas o que está a ser dito.


Mesmo ao lado, o corpo sai de casa marcando a viagem numa ausência incerta do seu destino. O seu único conhecimento é uma rua que sobe, outra que desce, uma curva a direito, a paragem do corpo, o olhar à espera do sinal verde, uma passadeira a atravessar, a longa rua a mover-se a cada passo, a entrada no metro e a sua saída. E quando o corpo entra na rua outra vez o olhar é absorvido.

quarta-feira

Imagem #6

Força torcida pela fragilidade.
A mão sangra um punho rasgado ao vento.
O corpo.